O objetivo desse estudo é trazer as referências bíblicas que mostram qual o real papel da igreja nas bodas (celebração da festa de casamento), apontar precisamente quem é a noiva, conforme as Escrituras, e identificar os demais personagens indicados na Parábola das 10 Virgens (Mateus 25:1-12), que é o texto base desse estudo.
Para entender o papel de cada personagem da parábola, é preciso compreender um pouco a tradição de Israel no tocante ao casamento.
Jesus contou a parábola para pessoas que estavam bastante acostumadas com todos os elementos nela mencionados. As bodas eram o desfecho de uma longa jornada que começava com uma promessa, passava pelo compromisso (noivado) e findava com o casamento (bodas), que é o assunto da parábola.
Conforme a tradição, o noivo costumava chegar à casa da noiva à noite, sendo então recebido por damas de honra que iam em direção a ele para o conduzirem até a presença da noiva, iluminando o caminho dele com suas lâmpadas acesas e glorificando a chegada do noivo.
Na época, como não havia iluminação pública tal como temos hoje, as lâmpadas acesas eram realmente necessárias para identificar que ali estava em curso a celebração de uma festa, além de possibilitar a identificação dos convidados da festa pelo noivo.
Como as dez virgens da parábola apontam para a igreja e, uma vez considerado o contexto cultural acima explicado, elas não aguardam o noivo para se casarem com ele. Na verdade, elas foram convidadas para a festa de casamento, tal como nós também fomos convidados pelo noivo para participar da festa das bodas. Veja isso na Bíblia:
Os discípulos de João e os fariseus estavam jejuando. Algumas pessoas vieram a Jesus e lhe perguntaram: “Por que os discípulos de João e os dos fariseus jejuam, mas os teus não? ” Jesus respondeu: “Como podem os convidados do noivo jejuar enquanto este está com eles? Não podem, enquanto o têm consigo. Mas virão dias quando o noivo lhes será tirado; e nesse tempo jejuarão. Marcos 2:18-20
No texto acima, o Senhor Jesus se refere aos discípulos chamando-os de “convidados do noivo”, e não de “a minha noiva”. Não há como sermos convidados da festa e noiva ao mesmo tempo.
A parábola do rei que celebra as bodas do filho (Mateus 22:1-12) também fala em pessoas convidadas para a festa. Os primeiros convidados daquele texto são o povo de Israel. Após a recusa, pessoas de todas as partes são convidadas a participarem do importante evento, estas últimas representando a igreja. A parábola termina com o rei dizendo:
E o rei, entrando para ver os convidados, viu ali um homem que não estava trajado com veste de núpcias. E disse-lhe: Amigo, como entraste aqui, não tendo veste nupcial? E ele emudeceu. Disse, então, o rei aos servos: Amarrai-o de pés e mãos, levai-o, e lançai-o nas trevas exteriores; ali haverá pranto e ranger de dentes. Mateus 22:11-13
Por mais de uma vez, a Palavra de Deus nos identificou expressamente como convidados, e não como a noiva de Cristo. Se isso ainda não for suficiente, a Bíblia nos mostra abertamente quem é a verdadeira noiva de Cristo, a qual se converterá, na ocasião das bodas do Cordeiro, na Esposa do Senhor. Observe:
E veio a mim um dos sete anjos que tinham as sete taças cheias das últimas sete pragas, e falou comigo, dizendo: Vem, mostrar-te-ei a esposa, a mulher do Cordeiro. E levou-me em espírito a um grande e alto monte, e mostrou-me a grande cidade, a santa Jerusalém, que de Deus descia do céu. E tinha a glória de Deus; e a sua luz era semelhante a uma pedra preciosíssima, como a pedra de jaspe, como o cristal resplandecente. E tinha um grande e alto muro com doze portas, e nas portas doze anjos, e nomes escritos sobre elas, que são os nomes das doze tribos dos filhos de Israel (…). Apocalipse 21:9-12
E eu, João, vi a santa cidade, a nova Jerusalém, que de Deus descia do céu, adereçada como uma esposa ataviada para o seu marido. Apocalipse 21:2
Mesmo no Antigo Testamento, vemos algumas referências ao noivado entre Deus e Sião (Jerusalém), tal como acontece entre um marido e uma esposa.
Assim diz o Senhor dos Exércitos: “Tenho muito ciúme de Sião; estou me consumindo de ciúmes por ela“. Zacarias 8:2
E serás uma coroa de glória na mão do Senhor, e um diadema real na mão do teu Deus. Nunca mais te chamarão: Desamparada, nem a tua terra se denominará jamais: Assolada; mas chamar-te-ão: O meu prazer está nela (Hefizibá), e à tua terra: A casada (Beulá); porque o Senhor se agrada de ti, e a tua terra se casará. Isaías 62:3,4
Por mais estranho que isso possa parecer, dado o elevado número de pessoas que desconhece o assunto, não há na Bíblia qualquer texto informando que a igreja é a noiva de Cristo.
Talvez esse equívoco tenha sido originado por uma má interpretação do texto trazido por Paulo na Carta aos Efésios e a seguir transcrito:
“Mulheres, sujeite-se cada uma a seu marido, como ao Senhor, pois o marido é o cabeça da mulher, como também Cristo é a cabeça da igreja, que é o seu corpo, do qual ele é o Salvador. Assim como a igreja está sujeita a Cristo, também as mulheres estejam em tudo sujeitas a seus maridos. Maridos, ame cada um a sua mulher, assim como Cristo amou a igreja e entregou-se por ela para santificá-la, tendo-a purificado pelo lavar da água mediante a palavra, e para apresentá-la a si mesmo como igreja gloriosa, sem mancha nem ruga ou coisa semelhante, mas santa e inculpável. Da mesma forma, os maridos devem amar cada um a sua mulher como a seu próprio corpo. Quem ama sua mulher, ama a si mesmo.” Efésios 5:22-28
O texto acima não está dizendo que a igreja é a noiva de Cristo, mas apenas declarando que os maridos devem amar as suas esposas tal como Cristo amou a igreja, ao ponto de se entregar por ela. O escritor apenas usou o amor de Cristo como um modelo a ser seguido no casamento entre um homem e uma mulher. Ir além disso é forçar uma interpretação fantasiosa que apenas contradiz as outras referências bíblicas que tratam o assunto de forma cristalina.
Outro texto mal compreendido está no livro do profeta Isaías, que diz:
“Regozijar-me-ei muito no Senhor, a minha alma se alegra no meu Deus; porque me cobriu de vestes de salvação e me envolveu com o manto de justiça, como noivo que se adorna de turbante, como noiva que se enfeita com as suas joias.” Isaías 61:10
Além de o texto não se dirigir aos gentios, conforme versículo anterior (v. 9), não vemos aqui a afirmação de que a igreja seja a noiva de Cristo, mas apenas as semelhanças entre a glória das vestes de salvação e a glória das vestes do noivo e da noiva.
Há ainda uma referência que pode causar algum tipo de incompreensão em relação ao tema desse estudo. Observe:
“E o Espírito e a esposa dizem: Vem. E quem ouve, diga: Vem. E quem tem sede, venha; e quem quiser, tome de graça da água da vida.” Apocalipse 22:17
Explicando essa última referência, o Espírito é Deus. A esposa é a “santa Jerusalém”, conforme Apocalipse 21:9-10 e demais referências bíblicas indicadas nesse estudo. O Espírito e a esposa dizem “Vem“, porque a glória de Deus há de ser revelada na cidade, sob cuja luz as nações andarão (Ap 21:24). Quem ouve são os chamados, os quais devem dizer Vem, convidando os demais, os quais poderão tomar de graça da água da vida, caso estejam inscritos no livro da vida do Cordeiro (Ap 21:27).
Seria muito estranho o Senhor Jesus Cristo ter como noiva aqueles a quem Ele chama de convidados na própria festa de casamento (Marcos 2:18-20), amigos (João 15:14), irmãos, irmãs e mães (Marcos 3:35), servos (Mateus 25:23), filhos (Apocalipse 21:7), reis e sacerdotes (Apocalipse 5:10).
Se você continua por aqui, trataremos agora de todos os personagens da parábola das 10 virgens.
O noivo: É o próprio Senhor Jesus Cristo. Na parábola, o noivo chega tarde o suficiente para encontrar as convidadas dormindo. Ele é antecedido pelo grito de alguém, que desperta as virgens.
As 10 virgens: As virgens da parábola representam os congregados da igreja. Na parábola, todas as virgens estão reunidas e adormecem, estando elas com azeite ou não. Assim será na volta do Senhor Jesus: pessoas com e sem o Espírito de Deus se reúnem regularmente num espaço congregacional e aguardam a vinda do Senhor Jesus. Em algum momento no futuro, a igreja “adormecerá”, porque estará enfrentando os tempos difíceis, traições e perseguições, multiplicação da iniquidade e o esfriamento do amor.
O Azeite: O combustível para a lâmpada de barro, responsável por produzir a chama que aquece o portador e ilumina a si próprio e o caminho. Remete ao próprio Espírito de Deus, que habita igualmente em vasos de barro (nós), aquece (Ap 3:15) e nos mantém no caminho, mesmo na escuridão do mundo.
Conforme a parábola, a falta do azeite nas lâmpadas das virgens insensatas as tornou irreconhecíveis pelo noivo, pois ele não conseguia enxergar o rosto delas na escuridão da noite. Da mesma forma, todos aqueles que não tiverem o Espírito Santo habitando em suas vidas, na ocasião da volta do Senhor Jesus Cristo, não serão por Ele reconhecidos.
“E agora, filhinhos, permanecei nele; para que, quando ele se manifestar, tenhamos confiança, e não sejamos confundidos por ele na sua vinda.” 1 João 2:28
O fato de as virgens não cederem do próprio azeite às imprudentes remete a nossa impossibilidade de cedermos um pouco do Espírito que habita em nós para uma outra pessoa.
Alguém que grita: como as dez virgens estavam dormindo, incluindo as prudentes, essa pessoa não poderia ser algum super crente pregando na “última hora”.
Também não poderia ser algum descrente ou seguidor de qualquer uma das inúmeras religiões pagãs existentes no mundo, pois essas pessoas sequer estão aguardando a volta do Senhor Jesus.
Esse grito, que desperta as virgens para a festa das bodas, muito provavelmente se refere a algum ser celestial fazendo uso da trombeta de Deus:
“Eis aqui vos digo um mistério: Na verdade, nem todos dormiremos, mas todos seremos transformados; Num momento, num abrir e fechar de olhos, ante a última trombeta; porque a trombeta soará, e os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados.” 1 Coríntios 15:51,52
Os Vendedores do azeite: não se tratam de Deus, pois a salvação e os dons são gratuitos, mediante a fé no Senhor Jesus Cristo. Não se tratam de seres espirituais (anjos, demônios ou mortos), pois não possuem estabelecimentos comerciais nesse mundo. Não podem ser os cristãos, afinal estes são representados pelas virgens. Também não se referem aos incrédulos e adeptos de outras crenças, pois estes não se envolvem com a fé cristã.
Assim, por eliminação, restaram apenas os mercadores da fé (mercenários). Essas pessoas não podem ser consideradas cristãs, pois enxergam o meio cristão apenas como um mercado a ser explorado e altamente lucrativo. Prova disso é que os mercadores da fé não pregam sobre arrependimento e sobre a volta do Senhor Jesus, afinal esse tipo de mensagem não gera lucro e é só para quem realmente crê no evangelho.
É importante lembrar que a parábola das dez virgens remete para o tempo do fim e que, em nossos dias, até mesmo canetas “ungidas” para passar em concurso têm sido comercializadas, além de travesseiros, pás de pedreiro, vassouras e uma série de outros produtos “ungidos” para diferentes finalidades.
Os mercadores da fé existem porque há gente disposta a pagar pelos dons de Deus e até mesmo a comprar o Espírito Santo de Deus, como já aconteceu no passado:
“Vendo Simão que o Espírito era dado com a imposição das mãos dos apóstolos, ofereceu-lhes dinheiro e disse: “Deem-me também este poder, para que a pessoa sobre quem eu puser as mãos receba o Espírito Santo”. Pedro respondeu: “Pereça com você o seu dinheiro! Você pensa que pode comprar o dom de Deus com dinheiro? Você não tem parte nem direito algum neste ministério, porque o seu coração não é reto diante de Deus. Arrependa-se dessa maldade e ore ao Senhor. Talvez ele perdoe tal pensamento do seu coração. (Atos 8:18-22).
Como vimos, ao contrário do que muitos dizem por aí, a igreja não é a noiva de Cristo, mas tão somente foi convidada para essa grande festa. Sejamos gratos por isso, afinal fomos apenas enxertados na oliveira (Romanos 11:11-24).
A Deus toda a honra e toda a glória.
]]>Por Samuele Bacchiocchi, Ph. D. (Com adaptações)
O inferno é uma doutrina bíblica. Mas que espécie de inferno? Um lugar onde os pecadores impenitentes queimam para sempre e conscientemente sofrem dor num fogo eterno que nunca termina? Ou um julgamento penal pelo qual Deus aniquila pecadores e pecado para sempre?
Tradicionalmente, através dos séculos, as igrejas têm ensinado e pregadores têm proclamado o inferno como tormento eterno. Mas em tempos recentes, raramente ouvimos os sermões de “fogo e enxofre”, mesmo de pregadores fundamentalistas, que podem ainda estar comprometidos com tal crença. Sua hesitação em pregar sobre tormento eterno provavelmente não é devida a uma falta de integridade em proclamar uma verdade impopular, mas a sua aversão de pregar uma doutrina na qual dificilmente creem. Afinal, como é possível que o Deus, que tanto amou o mundo que enviou Seu Filho Unigênito para salvar pecadores, pode também ser um Deus que tortura as pessoas (mesmo o pior dos pecadores) para sempre, indefinidamente? Como pode Deus ser um Deus de amor e justiça e ao mesmo tempo atormentar os pecadores para sempre no fogo do inferno?
Este paradoxo inaceitável tem levado estudiosos de todas as persuasões a re-examinar o ensino bíblico quanto ao inferno e o castigo final.[1]
A questão fundamental é: O fogo do inferno tormenta os perdidos eternamente ou os consome permanentemente? Embora existam outros esforços para explicar essa questão, atentaremos para o conceito de inferno como aniquilamento.
O conceito do inferno como aniquilamento
A crença no aniquilamento dos perdidos é baseada em quatro considerações bíblicas: (1) a morte como castigo do pecado; (2) o vocabulário sobre a destruição dos ímpios; (3) as implicações morais do tormento eterno; e (4) as implicações cosmológicas do tormento eterno.
A morte como punição do pecado.
O aniquilamento final dos pecadores impenitentes é indicado, em primeiro lugar, pelo princípio bíblico fundamental que o castigo final do pecado é a morte: “A alma que pecar morrerá” (Ezequiel 18:4, 20); “O salário do pecado é a morte” (Romanos 6:23). A punição do pecado compreende não somente a primeira morte, a qual todos experimentam como resultado do pecado de Adão, mas também o que a Bíblia chama a segunda morte (Apocalipse 20:14; 21:8), que é a morte final e irreversível a ser sofrida pelos pecadores impenitentes. Isso significa que o salário final do pecado não é o tormento eterno, mas morte permanente.
A Bíblia ensina que a morte é a cessação da vida. Não fosse pela segurança da ressurreição (1 Coríntios 15:18), a morte que experimentamos seria a terminação de nossa existência. É a ressurreição que converte a morte de ser o fim da vida em ser um sono temporário. Mas não há ressurreição para a segunda morte, porque aqueles que a sofrem são consumidos no “lago de fogo” (Apocalipse 20:14). Este será o aniquilamento final.
O vocabulário bíblico sobre a destruição dos ímpios.
A segunda razão compulsiva para crer no aniquilamento dos perdidos no julgamento final é o rico vocabulário de destruição usado na Bíblia para descrever o fim dos ímpios. Segundo Basil Atkinson, o Velho Testamento usa mais de 25 substantivos e verbos para descrever a destruição final dos ímpios.6
Diversos salmos descrevem a destruição final dos ímpios com imagens dramáticas (Salmos 1:3-6; 2:9-12; 11:1-7; 34:8-22; 58:6-10; 69:22-28; 145:17, 20). No Salmo 37, por exemplo, lemos que os ímpios logo “murcharão como a verdura” (v. 2); eles “serão desarraiga-dos…e…não existirão” (vv. 9, 10); eles “perecerão…e em fumo se desfarão” (v. 20); os transgressores “serão a uma destruídos” (v. 38). O Salmo 1 contrasta o caminho do justo com o dos ímpios. Dos últimos ele diz que “não subsistirão no juízo” (v. 5); mas serão “como a moinha que o vento espalha” (v. 4); “o caminho dos ímpios perecerá” (v. 6). No Salmo 145, Davi afirma: “O Senhor guarda a todos que o amam; mas todos os ímpios serão destruídos” (v. 20). Esta amostra de referências sobre a destruição final dos ímpios está em perfeita harmonia com o ensinamento do resto das Escrituras.
Os profetas frequentemente anunciam a destruição final dos ímpios em conjunção com o dia escatológico do Senhor. Isaías proclama que os “transgressores e os pecadores serão juntamente destruídos, e os que deixarem o Senhor serão consumidos” (Isaías 1:28). Descrições semelhantes se encontram em Sofonias 1:15, 17, 18 e Oséias 13:3.
A última página do Velho Testamento provê um contraste impressionante entre o destino dos crentes e o dos incrédulos. Sobre aqueles que temem o Senhor, “nascerá o sol da justiça e salvação trará debaixo das suas asas” (Malaquias 4:1). Mas para os incrédulos o dia do Senhor “os abrasará… de sorte que não lhes deixará nem raiz nem ramo” (Malaquias 4:1).
O Novo Testamento segue de perto o Velho ao descrever o fim dos ímpios com palavras e imagens que denotam aniquilamento total. Jesus comparou a destruição total dos ímpios a coisas como o joio atado em molhos para serem queimados (Mateus 13:30, 40), o peixe ruim que é lançado fora (Mateus 13:48), as plantas daninhas que serão arrancadas (Mateus 15:13), a árvore sem fruto que será cortada (Lucas 13:7), os ramos ressequidos que são lançados no fogo (João 15:6), os lavradores infiéis que serão destruídos (Lucas 20:16), os antediluvianos que foram destruídos pelo dilúvio (Lucas 17:27), o povo de Sodoma e Gomorra que foi consumido pelo fogo (Lucas 17:29), e os servos rebeldes que foram mortos à volta de seu Senhor (Lucas 19:27).
Todas estas ilustrações descrevem de modo gráfico a destruição final dos ímpios. O contraste entre o destino dos salvos e o dos perdidos é um de vida versus destruição.
Aqueles que apelam às referências de Cristo ao inferno ou fogo do inferno (gehenna, Mateus 5:22, 29, 30; 18:8, 9; 23:15, 33; Marcos 9:43, 44, 46, 47, 48) para apoiar sua crença num tormento eterno, deixam de reconhecer um ponto importante. Como John Stott assinala: “O fogo mesmo é chamado ‘eterno’ e ‘inextinguível’, mas seria muito estranho se aquilo que nele fosse jogado se demonstrasse indestrutível. Esperaríamos o oposto: seria consumido para sempre, não atormentado para sempre. Segue-se que é o fumo (evidência de que o fogo efetuou seu trabalho) que ‘sobe para todo o sempre’ (Apocalipse 14:11; ver 10:3)”.7 A referência de Cristo a gehenna não indica que o inferno seja um lugar de tormento infindo. O que é eterno ou inextinguível não é o castigo mas o fogo que, como no caso de Sodoma e Gomorra, causa a destruição completa e permanente dos ímpios, uma condição que dura para sempre.
A declaração de Cristo de que os ímpios “‘irão para o tormento eterno, mas os justos para a vida eterna’” (Mateus 25:46) é geralmente considerada como prova do sofrimento eterno e consciente dos ímpios. Esta interpretação ignora a diferença entre punição eterna e o ato de punir eternamente. O termo grego aionios (“eterno”) literalmente significa “aquilo que dura um período”, e frequentemente refere à permanência do resultado e não à continuação de um processo. Por exemplo, Judas 7 diz que Sodoma e Gomorra sofreram “a pena do fogo eterno”. É evidente que o fogo que destruiu as duas cidades é eterno, não por causa de sua duração mas por causa de seus resultados permanentes.
Outro exemplo se encontra em 2 Tessalonicenses 1:9, onde Paulo, falando daqueles que rejeitam o evangelho, diz: “Os quais, por castigo, padecerão eterna perdição, ante a face do Senhor e a glória do seu poder. É evidente que a destruição dos ímpios não pode ser eterna em sua duração, porque é difícil imaginar um processo de destruição eterno e inconclusivo. Destruição pressupõe aniquilamento. A destruição dos ímpios é eterna, não porque o processo de destruição continua para sempre, mas porque os resultados são permanentes.
A linguagem de destruição é inescapável no livro do Apocalipse. Lá ele representa a maneira de Deus vencer a oposição do mal a Si mesmo e a Seu povo. João descreve com ilustrações vívidas o lançamento do diabo, da besta, do falso profeta, da morte, de Hades e de todos os ímpios no lago de fogo que é a “a segunda morte” (Apocalipse 21:8; cf. 20:14; 2:11; 20:6).
Os judeus frequentemente usavam a frase “segunda morte” para descrever a morte final e irreversível. Exemplos numerosos podem ser achados no Targum, a tradução e interpretação em aramaico do Velho Testamento. Por exemplo, o Targum sobre Isaías 65:6 diz: “Seu castigo será em Gehenna onde o fogo arde todo o dia. Eis, está escrito diante de mim: ‘Não lhes darei descanso durante [sua] vida mas lhes darei o castigo de sua transgressão e entregarei seus corpos à segunda morte’”.8
Para os salvos, a ressurreição marca o galardão de outra vida mais elevada, mas para os perdidos marca a retribuição de uma segunda morte que é final. Como não há mais morte para os remidos (Apocalipse 21:4), assim não há mais vida para os perdidos (Apocalipse 21:8). A “segunda morte”, então, é a morte final e irreversível. Interpretar a frase de outro modo, como um tormento eterno e consciente ou separação de Deus, nega o significado bíblico da morte como uma cessação de vida.
As implicações morais do tormento eterno.
Uma terceira razão para crer no aniquilamento final dos perdidos e a implicação moral inaceitável da doutrina do tormento eterno. A noção de que Deus deliberadamente tortura pecadores através dos séculos sem fim da eternidade é totalmente incompatível com a revelação bíblica de Deus como amor infinito. Um Deus que inflige tortura infinda a Suas criaturas, não importa quão pecadoras foram, não pode ser o Pai de amor que Jesus Cristo nos revelou.
Tem Deus duas faces? É Ele infinitamente misericordioso de um lado e insaciavelmente cruel de outro? Pode Ele amar os pecadores de tal modo que enviou Seu Filho para salvá-los, e ao mesmo tempo odiar os pecadores impenitentes tanto que os submete a um tormento cruel sem fim? Podemos legitimamente louvar a Deus por Sua bondade, se Ele atormenta os pecadores através dos séculos da eternidade? A intuição moral que Deus plantou em nossa consciência não pode aceitar a crueldade de uma divindade que sujeita pecadores a tormento infindo. A justiça divina não poderia jamais exigir a penalidade infinita de dor eterna por causa de pecados finitos.
Além disso, tormento eterno e consciente é contrário ao conceito bíblico de justiça porque tal castigo criaria uma desproporção séria entre os pecados cometidos durante uma vida e o castigo resultante durando por toda a eternidade. Como John Stott pergunta: “Não haveria, então, uma desproporção séria entre pecados conscientemente cometidos no tempo e tormento conscientemente sofrido através da eternidade? Não minimizo a gravidade da pecado como rebelião contra Deus nosso Criador, mas questiono se `tormento eterno consciente’ é compatível com a revelação bíblica da justiça divina”.9
As implicações cosmológicas do tormento eterno.
Uma razão final para crer no aniquilamento dos perdidos é que tormento eterno pressupõe um dualismo cósmico eterno. Céu e inferno, felicidade e dor, bem e mal continuariam a existir para sempre lado a lado. É impossível reconciliar esta opinião com a visão profética da nova terra na qual não mais “haverá morte, nem pranto, nem clamor, porque já as primeiras coisas são passadas” (Apocalipse 21:4). Como poderiam pranto e dor serem esquecidos se a agonia e angústia dos perdidos fossem aspectos permanentes da nova ordem? A presença de incontáveis milhões sofrendo para sempre tormento excruciante, mesmo se fosse bem longe do arraial dos santos, serviria apenas para destruir a paz e a felicidade do novo mundo. A nova criação resultaria defeituosa desde o primeiro dia, visto que os pecadores permaneceriam como uma realidade eterna no universo de Deus.
O propósito do plano da salvação é desarraigar definitivamente a presença de pecado e pecadores deste mundo. Somente se os pecadores, Satanás e os diabos são afinal consumidos no lago de fogo e extintos na segunda morte que verdadeiramente poderemos dizer que a missão redentora de Cristo foi concluída. Tormento eterno lançaria uma sombra permanente sobre a nova criação.
Nossa geração precisa desesperadamente aprender o temor de Deus, e esta é uma razão para pregar o juízo final e castigo. Precisamos advertir as pessoas que aqueles que rejeitam os princípios de vida de Cristo e a provisão de salvação experimentarão afinal um julgamento terrível e “padecerão eterna perdição” (2 Tessalonicenses 1:9). Precisamos proclamar as grandes alternativas entre vida eterna e destruição permanente. A recuperação do ponto de vista bíblico do juízo final pode soltar a língua dos pregadores, porque podem pregar esta doutrina vital sem receio de retratar a Deus como um monstro.
Samuele Bacchiocchi (Ph.D., Pontificia Universita Gregoriana) foi professor de religião na Andrews University, Berrien Springs, Michigan, E.U.A. Este artigo é baseado num capítulo de seu livro Immortality or Resurrection? A Biblical Study on Human Nature and Destiny (Berrien Springs, Michigan: Biblical Perspectives, 1997). Fonte: Revista Diálogo
A mera publicação do artigo acima não indica aquiescência aos demais conteúdos do autor ou da Revista Diálogo.
]]>Apesar de tão comum e aparentemente inofensiva, a atividade comerciária desenvolvida pela comunidade cristã não encontra respaldo na Bíblia Sagrada em lugar algum. Com base nas Escrituras, encontramos sim orientações que não se compatibilizam com o comércio em torno da fé.
Por exemplo, a Bíblia nos mostra o discurso que Jesus proferirá a uma multidão que estará à sua direita, na ocasião de sua vinda. Observe:
Então dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo;
Porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me;
Estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e foste me ver.
Então os justos lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, e te demos de comer? ou com sede, e te demos de beber?
E quando te vimos estrangeiro, e te hospedamos? ou nu, e te vestimos?
E quando te vimos enfermo, ou na prisão, e fomos ver-te?
E, respondendo o Rei, lhes dirá: Em verdade vos digo que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes.
Mateus 25:34-40
Depois de ver esse discurso, você conseguiria imaginar Jesus dizendo: “Porque tive fome e sede, e vendeste-me na cantina; estive nu, e comprei no bazar”?
Verificamos em um outro texto que a realização de comércio, mesmo relacionado à atividade de culto, como a venda de animais para o sacrifício, também indignou o Senhor Jesus, levando-o a expulsar tanto os que vendiam, quanto os que compravam no Templo, pois o lugar era destinado à adoração, e não ao comércio.
A cena foi tão desgostosa para Jesus e a sua reação tão enérgica que os discípulos se lembraram do Salmo 69:9, que diz: “o zelo da tua casa me devorou (…)”, a ponto de a lembrança ter sido registrada no Evangelho. Observe o contexto:
E estava próxima a páscoa dos judeus, e Jesus subiu a Jerusalém.
E achou no templo os que vendiam bois, e ovelhas, e pombos, e os cambiadores assentados.
E tendo feito um azorrague de cordéis, lançou todos fora do templo, também os bois e ovelhas; e espalhou o dinheiro dos cambiadores, e derribou as mesas;
E disse aos que vendiam pombos: Tirai daqui estes, e não façais da casa de meu Pai casa de venda.
E os seus discípulos lembraram-se do que está escrito: O zelo da tua casa me devorou.João 2:13-17
Avançando nas Escrituras, já no período da graça e inicial da igreja, também não encontramos qualquer indício de que aquela primeira comunidade cristã adotasse práticas comerciais de qualquer natureza, ainda que houvesse necessidades a serem supridas.
Quando um grupo de pessoas estava enfrentando dificuldades financeiras, como era o caso da igreja em Jerusalém, os apóstolos apenas orientavam os irmãos das regiões mais ricas a colocarem o amor de Cristo em prática e a doarem valores conforme a prosperidade de cada um:
Ora, quanto à coleta que se faz para os santos, fazei vós também o mesmo que ordenei às igrejas da Galácia.
No primeiro dia da semana cada um de vós ponha de parte o que puder ajuntar, conforme a sua prosperidade, para que não se façam as coletas quando eu chegar.
E, quando tiver chegado, mandarei os que por cartas aprovardes, para levar a vossa dádiva a Jerusalém.1 Coríntios 16:1-3
Em outra ocasião, o apóstolo orientou os irmãos corintos no sentido de que as contribuições deveriam ser feitas de tal modo que não os sobrecarregassem financeiramente, mas para que houvesse igualdade:
Agora, porém, completai também o já começado, para que, assim como houve a prontidão de vontade, haja também o cumprimento, segundo o que tendes.
Porque, se há prontidão de vontade, será aceita segundo o que qualquer tem, e não segundo o que não tem.
Mas, não digo isto para que os outros tenham alívio, e vós opressão,
Mas para igualdade; neste tempo presente, a vossa abundância supra a falta dos outros, para que também a sua abundância supra a vossa falta, e haja igualdade;
Como está escrito: O que muito colheu não teve demais; e o que pouco, não teve de menos.2 Coríntios 8:11-15
Cada um contribua segundo propôs no seu coração; não com tristeza, ou por necessidade; porque Deus ama ao que dá com alegria.
2 Coríntios 9:7
Como vemos, é tranquila a conclusão de que a Bíblia não ampara a realização de comércio no espaço de culto, ou mesmo fora dele, pelo simples fato de a igreja ter sido comissionada para pregar o Evangelho de Cristo (Atos 1:8), e não para fazer comércio, quer por meio de rifas ou venda de qualquer objeto, não importando se a intenção é boa ou não, afinal os fins não justificam os meios.
Alguém pode argumentar que a igreja no passado era mais generosa e que atualmente é necessário usar estratégias comerciárias para arrecadar verbas, porém esse entendimento revela um profundo desconhecimento bíblico acerca do assunto e a descrença que essa pessoa possui no Provedor da obra, capaz de sustentar a igreja espiritualmente e materialmente e de movê-la para cumprir a missão para a qual foi comissionada: testemunhar sobre Cristo.
Essa excessiva preocupação em como arrecadar dinheiro tem desviado a igreja de sua verdadeira missão e da sã doutrina e afastado as pessoas que nós deveríamos trazer para Cristo, como está escrito:
E também houve entre o povo falsos profetas, como entre vós haverá também falsos doutores, que introduzirão encobertamente heresias de perdição, e negarão o Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina perdição.
E muitos seguirão as suas dissoluções, pelos quais será blasfemado o caminho da verdade.
E por avareza farão de vós negócio com palavras fingidas; sobre os quais já de largo tempo não será tardia a sentença, e a sua perdição não dormita.2 Pedro 2:1-3
Embora muitas denominações religiosas estejam bastante preocupadas em como arrecadar mais dinheiro, a igreja vista como a mais rica era justamente a mais pobre delas:
]]>“Conheço as tuas obras, e tribulação, e pobreza (mas tu és rico), e a blasfêmia dos que se dizem judeus, e não o são, mas são a sinagoga de Satanás.”
Apocalipse 2:9.
“Então conheçamos, e prossigamos em conhecer ao Senhor; a sua saída, como a alva, é certa; e ele a nós virá como a chuva, como chuva serôdia que rega a terra. (…) Porque eu quero a misericórdia, e não o sacrifício; e o conhecimento de Deus, mais do que os holocaustos.” Oséias 6:3,6
“E te humilhou, e te deixou ter fome, e te sustentou com o maná, que tu não conheceste, nem teus pais o conheceram; para te dar a entender que o homem não viverá só de pão, mas de tudo o que sai da boca do Senhor viverá o homem.” Deuteronômio 8:3
“O meu povo foi destruído, porque lhe faltou o conhecimento; porque tu rejeitaste o conhecimento, também eu te rejeitarei, para que não sejas sacerdote diante de mim; e, visto que te esqueceste da lei do teu Deus, também eu me esquecerei de teus filhos.” Oséias 4:6
“Bem-aventurado aquele que lê, e os que ouvem as palavras desta profecia, e guardam as coisas que nela estão escritas; porque o tempo está próximo.” Apocalipse 1:3
O problema é que nem sempre a leitura dos textos bíblicos é uma tarefa fácil. Se não tivermos alguns cuidados nos estudos, chegaremos a conclusões particulares bem distantes das verdades bíblicas.
A fim de nos aproximar mais destas verdades, devemos, na ocasião da leitura, considerar o destinatário do texto, observar a aliança em vigor, verificar o contexto histórico, social, político, comparar o texto nas diferentes versões, verificar o que outros textos dizem em relação ao mesmo assunto, etc. Veja a seguir alguns exemplos::
DESTINATÁRIO DO TEXTO: “Com maldição sois amaldiçoados, porque a mim me roubais, sim, toda esta nação.” Ml 3:9
A mensagem de Malaquias foi dirigida à nação de Israel, e não às demais. Portanto a maldição do devorador (espécie de gafanhoto) afetaria apenas aquela nação. Da mesma forma, a promessa de enriquecimento também valeria apenas para Israel, e não para a igreja.
ALIANÇA EM VIGOR: Não é porque um texto está no Novo Testamento que ele se aplica à igreja:
“E, eis que veio um leproso, e o adorou, dizendo: Senhor, se quiseres, podes tornar-me limpo. E Jesus, estendendo a mão, tocou-o, dizendo: Quero; sê limpo. E logo ficou purificado da lepra. Disse-lhe então Jesus: Olha, não o digas a alguém, mas vai, mostra-te ao sacerdote, e presenta a oferta que Moisés determinou, para lhes servir de testemunho.” Mateus 8:2-4
Na ocasião relatada acima, a aliança em vigor ainda não era a da graça, mas a da lei, pois diante de uma situação de cura, já não é mais necessário oferecer ao sacerdote a oferta da qual falou o Senhor Jesus Cristo.
A falta de entendimento acerca disso fez com que Paulo repreendesse aqueles que guardavam o sábado ou qualquer outro dia (Gálatas 4:9-11), porque na aliança da graça, essa prática já não faz mais sentido, uma vez que o perdão e salvação se dá pela graça.
Ainda que algumas mulheres tenham guardado o sábado após a morte de Cristo (Lucas 23:56), esse exemplo não deve ser repetido por nós, porque elas ainda viviam sob o costume da aliança da Lei. A aliança da graça iniciou apenas após a ressurreição de Cristo e o comissionamento em Atos 1:8.
Além disso, o sábado é colocado cristalinamente como uma sombra do que haveria de vir, isto é, Cristo.
“Portanto, não permitam que ninguém os julgue pelo que vocês comem ou bebem, ou com relação a alguma festividade religiosa ou à celebração das luas novas ou dos dias de sábado. Essas coisas são sombras do que haveria de vir; a realidade, porém, encontra-se em Cristo” Colossenses 2:16-17.
Ainda sobre o mesmo assunto, Paulo registra:
“Um faz diferença entre dia e dia; outro julga iguais todos os dias. Cada um tenha opinião bem-definida em sua própria mente. 6 Quem distingue entre dia e dia para o Senhor o faz; e quem come para o Senhor come, porque dá graças a Deus; e quem não come para o Senhor não come e dá graças a Deus.” Romanos 14:5-6
Da mesma forma, não é porque um texto está no Velho Testamento que ele não pode possuir aplicação para os nossos dias. Observe:
“E, quanto aos dez chifres, daquele mesmo reino se levantarão dez reis; e depois deles se levantará outro, o qual será diferente dos primeiros, e abaterá a três reis. E proferirá palavras contra o Altíssimo, e destruirá os santos do Altíssimo, e cuidará em mudar os tempos e a lei; e eles serão entregues na sua mão, por um tempo, e tempos, e a metade de um tempo.” (Daniel 7:24,25)
Daniel viveu no período da aliança legal, mas seu livro está repleto de profecias que se cumprirão nos tempos atuais, já no período da aliança da graça.
CONTEXTO
“Mas toda a mulher que ora ou profetiza com a cabeça descoberta, desonra a sua própria cabeça, porque é como se estivesse rapada.” 1 Coríntios 11:5
Uma parcela da igreja atual acredita que as mulheres devem usar um lenço sobre a cabeça para participar de seus cultos. A ordenança está fundamentada no versículo acima que, se lido isoladamente, parece mesmo determinar essa prática.
Porém quando observamos o contexto social, histórico e geográfico, devemos considerar que havia em Corinto um grupo de mulheres que se prostituía e era adorador de uma falsa deusa chamada Afrodite.
A marca característica dessas mulheres era possuir a cabeça raspada ou os cabelos bem curtos.
Assim, para evitar eventuais transtornos e constrangimentos com os filhos da fé e com os ímpios, essas mulheres eram orientadas a utilizar o véu.
Paulo realmente recomenda para as mulheres daquela comunidade o uso do véu, mas somente para as mulheres que tinham a cabeça raspada ou o cabelo muito curto.
As irmãs cujos cabelos fossem compridos estavam dispensadas do uso do véu, conforme o quase invisível versículo que diz:
“Mas ter a mulher cabelo crescido lhe é honroso, porque o cabelo lhe foi dado em lugar de véu.” (1 Coríntios 11:15).
A ordem sobre o uso do véu foi dada num contexto específico e só aparece na carta aos Coríntios. Não cabe em nossa realidade, pois não há qualquer associação entre cabelo curto e prostituição ou adoração a um falso deus em nossa cultura, como havia em Corinto.
DIFERENTES VERSÕES
Uma das melhores formas de resolver dúvidas rapidamente é comparar textos das diferentes versões da Bíblia. Observemos o texto a seguir, na versão Almeida Corrigida e Fiel:
“Porque todas as suas mesas estão cheias de vômitos e imundícia, e não há lugar limpo. A quem, pois, se ensinaria o conhecimento? E a quem se daria a entender doutrina? Ao desmamado do leite, e ao arrancado dos seios? Porque é mandamento sobre mandamento, mandamento sobre mandamento, regra sobre regra, regra sobre regra, um pouco aqui, um pouco ali. Assim por lábios gaguejantes, e por outra língua, falará a este povo. Ao qual disse: Este é o descanso, dai descanso ao cansado; e este é o refrigério; porém não quiseram ouvir. Assim, pois, a palavra do Senhor lhes será mandamento sobre mandamento, mandamento sobre mandamento, regra sobre regra, regra sobre regra, um pouco aqui, um pouco ali; para que vão, e caiam para trás, e se quebrantem e se enlacem, e sejam presos.” Isaías 28:8-13
A leitura limitada a apenas uma versão pode prejudicar o correto entendimento do texto. Nesse caso, ao que parece, Deus está nos dizendo, dentre outras coisas, que a Bíblia deve ser estudada considerando que os ensinamentos estão espalhados por toda a parte nas Escrituras. Embora isso seja um fato, não foi isso que o profeta realmente quis dizer. Para ficar mais claro, verifiquemos o mesmo trecho em uma versão diferente (NTLH – Nova Tradução na Linguagem de Hoje):
“8 As suas mesas estão cobertas de vômito, não há um só lugar que esteja limpo. 9 Eles falam mal de mim e perguntam: “A quem é que esse profeta está querendo ensinar? Será que ele pensa que vai explicar a mensagem para nós? Será que somos bebês desmamados há pouco tempo? 10 Ele está pensando que nós somos crianças e quer nos ensinar o beabá.” 11 Se vocês não quiserem ouvir o que eu digo, então o Senhor falará com vocês por meio de estrangeiros, que falam uma língua estranha. 12 Há tempo, eu disse a vocês: “Deus lhes dará descanso; ele lhes dará segurança. Aqui vocês estarão seguros.” Mas vocês não quiseram ouvir. 13 Por isso, o Senhor vai ensinar-lhes o beabá, como se vocês fossem crianças. Então vocês tentarão andar, mas cairão de costas; serão feridos, cairão em armadilhas e serão presos.”
No primeiro texto, há uma incoerência textual, uma quebra na ligação entre as perguntas “A quem pois (…) e ao arrancado dos seios?” e a sequência do texto “mandamento sobre mandamento (…) um pouco ali”.
No segundo texto, essa ligação não está comprometida e todo o fragmento “mandamento sobre mandato (…) um pouco ali” é substituído pela expressão “beabá”.
Isso acontece porque o texto em hebraico, nessa parte do versículo, não possui uma tradução exata e um sentido lógico, mas corresponde apenas a uma onomatopeia do que o profeta falou, uma espécie de imitação barata com sons inventados e com intenção de ridicularizá-lo. É como se eles estivessem dizendo, em nossa língua: “blá-blá-blá”, debochando da repreensão do homem de Deus.
Na versão NTLH, a palavra “beabá” substituiu a expressão onomatopéica çav laçav, çav laçav; qav laqav, qav laqav; ze’êr sham, ze’êr sham, a qual não se deveria traduzir por “mandamento sobre mandato (…) um pouco ali”.
Por isso mesmo também a Bíblia de Jerusalém, uma das mais aclamadas versões da Bíblia no meio teológico, não traduz o fragmento em questão. Observe:
“Com efeito, todas as suas mesas estão cheias de vômito e de imundície já não há um lugar limpo. A quem ensinará ele o conhecimento? A quem fará ele entender o que foi dito? A crianças apenas desmamadas, apenas tiradas do seio, quando diz: çav laçav, çav laçav; qav laqav, qav laqav; ze’êr sham, ze’êr sham. Com efeito, é com lábios gaguejantes e em uma língua estranha que ele falará a este povo. Ele lhes dissera: “Este é o repouso! Dai repouso ao cansado: este é um lugar tranquilo.” Mas não quiseram escutar. Diante disso a palavra de Iahweh para eles será: çav laçav, çav laçav; qav laqav, qav laqav; ze’êr sham, ze’êr sham, a fim de que ao caminharem caiam para trás, e se despedacem, ao serem apanhados no laço e aprisionados.
LEITURA SISTEMÁTICA
Procurar por toda a Bíblia textos que falem sobre um mesmo assunto é uma das melhores maneiras de chegarmos a um entendimento mais amplo e preciso sobre o tema estudado. O próprio Senhor Jesus utilizou essa técnica para ensinar aos seus discípulos. Observe:
“E começando por Moisés e todos os profetas, explicou-lhes [a dois discípulos] o que constava a respeito dEle em todas as Escrituras. (…) E disse-lhes: “Foi isso que Eu lhes falei enquanto ainda estava com vocês: Era necessário que se cumprisse tudo o que a Meu respeito está escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos”. Então lhes abriu o entendimento, para que pudessem compreender as Escrituras. (Lucas 24:27, 44-45)
Observe um outra situação para praticar:
“E destes profetizou também Enoque, o sétimo depois de Adão, dizendo: Eis que é vindo o Senhor com milhares de seus santos; Para fazer juízo contra todos e condenar dentre eles todos os ímpios, por todas as suas obras de impiedade, que impiamente cometeram, e por todas as duras palavras que ímpios pecadores disseram contra ele.” Judas 1:14,15
O texto não entra em detalhes acerca dos santos que virão com o Senhor. Porém ao pesquisar o mesmo assunto em outro livro da Bíblia, observamos que o Senhor virá com os seus santos anjos.
“E quando o Filho do homem vier em sua glória, e todos os santos anjos com ele, então se assentará no trono da sua glória;” (Mateus 25:31)
Com a utilização das técnicas acima, o entendimento acerca dos assuntos estudados será consideravelmente maior e mais preciso.
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