Siquém: o renovo do pacto com Deus

Introdução

O capítulo 24 do livro de Josué conta a história do renovo da aliança com Deus, estando o povo reunido em Siquém.

Josué inicia o sermão trazendo à memória os feitos de Deus, citando os patriarcas, a descida do povo para o Egito e o envio de Moisés e Arão para resgatá-lo, a entrada na terra prometida e as intervenções divinas para que tudo isso fosse possível.

Depois, Josué manda o povo servir ao verdadeiro Deus e deitar fora os deuses dos egípcios e dos amorreus, acrescentando que independentemente da escolha, ele e sua casa serviriam ao Senhor (v. 15).

Diante da necessidade de escolha, o povo escolhe servir ao Deus de Israel, ao que Josué responde “não podereis servir ao Senhor, porquanto é Deus santo” (v. 19), pelo menos não enquanto os ídolos permanecessem de pé no coração daquele povo.

Resolvida essa pendência, Josué faz a aliança com o povo, erige (coloca de pé) uma grande pedra debaixo do carvalho que estava junto ao santuário do Senhor (v. 26), dizendo que a pedra seria como testemunha, por ter ouvido todas as palavras que o Senhor havia falado (v. 27).

Josué não desejava apenas que o povo se arrependesse dos pecados e manifestasse publicamente a escolha pelo verdadeiro Deus, mas também que o povo O servisse.

O pacto realizado com Deus foi realmente honrado por aquela geração, vindo a ser quebrado somente na geração que a sucedeu, a qual passou a servir aos baalins, por não ter conhecido ao Senhor (Juízes 2:10-11).

Isso demonstra a importância de educarmos nossos filhos, a fim de que possam caminhar na presença do verdadeiro Deus após a nossa partida.

A partir de agora, vamos investigar com mais profundidade alguns dos elementos presentes no momento do renovo do pacto, a fim de entender de forma mais adequada a atmosfera daquele ambiente e suas conexões com o passado e o futuro.

Josué

A história de Josué nas Escrituras Sagradas começa no Monte Sinai, quando ele é referido como servo de Moisés (Êxodo 24:13) e alguém que nunca se apartava do meio da tenda (Êxodo 33:11). 

A tenda foi uma construção provisória antes da construção do Tabernáculo em Êxodo 40. Era o local em que Deus falava com Moisés (Êxodo 33:9) e onde o povo buscava a presença de Deus, mas sem nela adentrar (Êxodo 33:8).

Josué é um arquétipo de Cristo. Assim como Josué concluiu a missão iniciada por Moisés e introduziu o povo na Terra Prometida, o Senhor Jesus concluiu a própria missão, a fim de nos introduzir na Terra Prometida celestial.

As coincidências não param por aí. No hebraico, Josué (Yehoshua/Yeshua) e Jesus (Yeshua) são essencialmente o mesmo nome e apresentam o mesmo significado, pois Yeshua é abreviação de Yehoshua.

Talvez Moisés não soubesse, mas ao alterar o nome de Oséias (הוֹשֵׁעַ – Hoshea – “Salvação”) para Josué (יְהוֹשֻׁעַ – Yehoshua/Yeshua – “O Senhor é a salvação”), conforme registro em Números 13:16, ele acabou apontando profeticamente para o Filho de Deus.

Outro elemento importante a considerar é o próprio local da reunião para decidir entre os falsos deuses e o verdadeiro Deus.

A localização

Conforme Josué 24:1, o povo havia se reunido em Siquém e isso não aconteceu por acaso.

Inicialmente, observe a localização da antiga cidade nos mapas abaixo, a fim de se situar adequadamente.

O mapa da esquerda mostra a distribuição das tribos de Israel entre os anos de 1.200 e 1.050 a.C e o da direita corresponde a Israel no período do Senhor Jesus.

Como tudo no hebraico, a palavra “Siquém” (שְׁכֶם – Shekém – ombro, costado ou parte superior das costas) também tem o seu próprio significado.

Ela tem origem na raiz hebraica שכם (shakám), que também significa “erguer cedo”, “levantar o ombro para carregar algo”.

Em última análise, Siquém foi o lugar escolhido para o povo “carregar o pacto”. Como sabemos, séculos depois, o Senhor Jesus carregou na parte superior de suas costas ou ombro o madeiro, que é também um símbolo de uma Nova Aliança com Deus.

Siquém estava localizada na entrada do vale, próxima dos montes que simbolizam a bênção e a maldição.

A simbologia associada aos montes decorre de uma ordem dada pelo próprio Deus, nos seguintes termos:

“E será que, quando o Senhor teu Deus te introduzir na terra, a que vais para possuí-la, então pronunciarás a bênção sobre o monte Gerizim, e a maldição sobre o monte Ebal.” Deuteronômio 11:29

As pessoas reunidas por Josué para renovar a aliança em Siquém já estavam familiarizadas com aquele local, pois há aproximadamente 20 ou 30 anos, elas haviam pronunciado as palavras de bênção sobre o monte Gerizim (Frutífero ou das Colheitas) e maldição sobre o monte Ebal (Descoberto ou Nu), a fim de cumprir a antiga ordem, conforme registra o texto de Josué 8:33.

O comando de Deus para pronunciar tais palavras tinha a clara intenção de causar um impacto visual e transmitir um ensinamento marcante sobre as consequências pela escolha que eles fariam naquele lugar anos depois.

Havia de fato um contraste entre os dois montes: um possuía vegetação e fontes; o outro era seco e infrutífero.

Esse apelo visual nos ajuda a compreender um pouco melhor as palavras de Jesus, ao dizer:

“Eu sou a videira, vós as varas; quem está em mim, e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer.”  João 15:5

“Como dizes: Rico sou, e estou enriquecido, e de nada tenho falta; e não sabes que és um desgraçado, e miserável, e pobre, e cego, e nu; Aconselho-te que de mim compres ouro provado no fogo, para que te enriqueças; e roupas brancas, para que te vistas, e não apareça a vergonha da tua nudez; e que unjas os teus olhos com colírio, para que vejas. Eu repreendo e castigo a todos quantos amo; sê pois zeloso, e arrepende-te.” Apocalipse 3:17-19

O altar de Abraão

Siquém é o local no qual Abraão edifica pela primeira vez um altar a Deus, conforme o texto de Gênesis 12:6-7.

Portanto, ao reunir o povo ali, Josué revive essa lembrança e os reconecta ao pacto com Abraão, retornando ao ponto de origem da promessa, onde Deus havia dito a Abraão que sua descendência herdaria aquela terra.

A pedra

Segundo Josué 24, após o povo deitar fora os falsos deuses, isto é, removê-los do coração, Josué erige uma grande pedra debaixo de um carvalho, como sinal de conversão a Deus.

Esse ato indica que para fazer uma aliança com Deus, é necessário estar disposto a abandonar os velhos ídolos (pecado) e nos aproximar de Deus com o coração inteiro (Josué 24:23).

A pedra é um símbolo para Deus e isso é bastante evidente no hebraico.

אֶבֶן – Even – pedra ou rocha

Com as letras da palavra אֶבֶן (Even), é possível formar as palavras “pai” e “filho”. Essa peculiaridade ilustra bem a unidade entre o Pai e o Filho: a “Rocha” da salvação.

אב (Av): pai.
Exemplo: Avraham – pai de uma multidão

בן (Ben): filho.
Exemplo: Benyamin (Benjamim) – filho da felicidade

Por isso, estando no deserto, Moisés feriu a Rocha para extrair água e matar a sede do povo. Isso já referia o sacrifício do Filho, que nos dá a verdadeira água viva (João 4:10).

Se Deus extraiu água da rocha no deserto, Ele pode prover o extraordinário em sua vida de onde você menos espera!

No Evangelho, Jesus se referia a si mesmo como uma Pedra, conforme Mateus 21:44 e Marcos 12:10.

Foi assim também ao se dirigir ao seu discípulo Pedro, dizendo:

“Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela;” Mateus 16:18

Jesus deixa claro que a igreja seria edificada sobre Ele mesmo — a verdadeira Rocha — e não sobre Pedro. Embora o nome “Pedro” também signifique “pedra”, ele não poderia ser o fundamento da igreja, pois é um homem falho como todos nós.

O contraste entre “Pedro” (petros, pedra pequena) e “pedra” (petra, rocha maciça) confirma que Jesus não estava estabelecendo Pedro como base, mas revelando que o Senhor Jesus era a “Rocha espiritual” (1 Coríntios 10:4), o único alicerce sobre o qual a igreja seria edificada.

Para não deixar qualquer dúvida sobre o assunto, o próprio Pedro afirmou claramente que o fundamento é Cristo, dizendo:

Ele é a pedra que foi rejeitada por vós, os edificadores, a qual foi posta como pedra angular. E em nenhum outro há salvação; porque debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, em que devamos ser salvos.” Atos 4:11-12

Pedro participa da edificação, mas não é o fundamento. Cristo é o fundamento (1 Coríntios 3:11); Pedro é uma pedra entre muitas (1 Pedro 2:4–5).

O carvalho

Os carvalhos são também um símbolo da presença de Deus e marcavam lugares sagrados.

Começando pelo nome da árvore, ele tem o mesmo radical da palavra Deus:

אֵלָה (Elah – carvalho)

אל  (El – Deus).

Exemplo: אל שדי (El Shadday – Deus Todo-Poderoso)

Trata-se de uma árvore que pode viver por mais de 1000 anos, se bem cuidada, e isso já refere o reinado milenar de Cristo. Devido à longevidade, os carvalhos eram considerados como testemunhas da fé antiga e da história da aliança.

Conexão entre Siquém e Jesus

A região do antigo pacto realizado entre o povo e Deus em Siquém foi o cenário para um novo encontro, desta vez com o Senhor Jesus, no qual o povo daquela região pôde escolher de novo entre a bênção e a maldição.

O relato está no capítulo 4 de João, que narra o encontro de Jesus com a mulher samaritana.

“Foi, pois, a uma cidade de Samaria, chamada Sicar, junto da herdade que Jacó tinha dado a seu filho José. E estava ali a fonte de Jacó. Jesus, pois, cansado do caminho, assentou-se assim junto da fonte. Era isto quase à hora sexta. Veio uma mulher de Samaria tirar água. Disse-lhe Jesus: Dá-me de beber.” João 4:5-7

Reveja o mapa:

Jesus foi à cidade de Sicar e se dirigiu até o poço de Jacó, que está localizado na zona mais baixa e central do vale entre os montes de Gerizim e Ebal, onde o antigo pacto foi celebrado nos tempos de Josué.

Por isso, durante a conversa, o monte é mencionado pela mulher e por Jesus:

“Disse-lhe a mulher: Senhor, vejo que és profeta. Nossos pais adoraram neste monte, e vós dizeis que em Jerusalém é o lugar onde se deve adorar. Disse-lhe Jesus: Mulher, crê-me, a hora vem, em que nem neste monte, nem em Jerusalém adorareis o Pai.” João 4:19-21

Após conversar com a mulher e transformá-la em missionária naquele mesmo dia, porque ela sai e começa a falar de Jesus na cidade, muitas pessoas vão até o Senhor Jesus para ouvirem a Palavra e decidirem novamente entre a bênção e a maldição, salvação pela graça ou pelas obras da lei, naquele mesmo cenário que Deus havia preparado para ensinar as consequências por cada escolha: Gerizim e Ebal.

O resultado foi este:

“E muitos dos samaritanos daquela cidade creram nele, pela palavra da mulher, que testificou: Disse-me tudo quanto tenho feito. Indo, pois, ter com ele os samaritanos, rogaram-lhe que ficasse com eles; e ficou ali dois dias. E muitos mais creram nele, por causa da sua palavra. E diziam à mulher: Já não é pelo teu dito que nós cremos; porque nós mesmos o temos ouvido, e sabemos que este é verdadeiramente o Cristo, o Salvador do mundo.” João 4:39-42

O poço de Jacó

Em relação ao referido poço de Jacó, ele continua fornecendo água até hoje, proveniente de fontes subterrâneas e águas superficiais infiltradas.

Ele está localizado no interior de uma Igreja Ortodoxa Grega, localizada na cidade de Nablus (antiga Siquém), Cisjordânia:

A Cisjordânia é um território disputado entre israelenses e palestinos e palco frequente de tensões.

Em razão dos conflitos, quase setenta por cento da divisa entre Israel e a Cisjordânia foi cercada com a estrutura que aparece na imagem da direita.

Conclusão

Como vimos, Josué reuniu o povo para que este escolhesse entre servir ou não ao verdadeiro Deus, e isso é mais do que apenas crer, fazendo de Siquém o vale da decisão.

Mais tarde, na região de Siquém, muitos samaritanos se arrependeram e confessaram o Senhor Jesus Cristo como o Salvador de suas vidas!

Assim como o povo de Israel abandonou os ídolos para servir a Deus, nós devemos rejeitar também os nossos próprios ídolos (pecados) para que possamos servir ao Senhor agora mesmo.

Os encontros em Siquém nos ensinam que para ser salvo, é necessário se arrepender e confessar publicamente a fé em Deus, no Senhor Jesus Cristo.

Isso foi reafirmado por Jesus.

“Portanto, qualquer que me confessar diante dos homens, eu o confessarei diante de meu Pai, que está nos céus. Mas qualquer que me negar diante dos homens, eu o negarei também diante de meu Pai, que está nos céus.” Mateus 10:32-33

E pelo apóstolo Paulo:

“A saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Visto que com o coração se crê para a justiça, e com a boca se faz confissão para a salvação.” Romanos 10:9-10

O ato de confissão deve ser acompanhado com a recepção do Senhor Jesus como Único, Suficiente e Eterno Salvador de nossas vidas.

“Veio para o que era seu, e os seus não o receberam. Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome;” João 1:11-12

É somente recebendo o Senhor Jesus que deixamos de ser criaturas e nos tornamos filhos de Deus. Receber é diferente de aceitar.

Agora mesmo, espalhadas por congregações do mundo inteiro, quantas pessoas até frequentam os cultos com alguma regularidade, mas nunca:

  • Confessaram e receberam o Senhor Jesus diante dos homens.
  • Foram batizadas nas águas.

Às vezes focamos nossas ações de evangelismo do lado de fora do “arraial”, enquanto muitas pessoas ainda não cumpriram toda a justiça, estando dentro dele.

“Mas João opunha-se-lhe, dizendo: Eu careço de ser batizado por ti, e vens tu a mim? Jesus, porém, respondendo, disse-lhe: Deixa por agora, porque assim nos convém cumprir toda a justiça. Então ele o permitiu.” Mateus 3:14-15

Quem ainda não confessou e não recebeu o Senhor Jesus como Salvador de sua vida, procure fazer isso diante dos homens o mais rápido possível, a fim de “cumprir toda a justiça”.

Manifestar publicamente a fé no Senhor Jesus é um requisito bíblico e os resultados visíveis dessa escolha serão os muitos frutos que essa pessoa produzirá, assim como o Gerizim, o Monte Frutífero.

Se esses frutos não estão presentes, é necessário avaliar os próprios atos e verificar que tipo de obras estão sendo realizadas para o Senhor Deus.

Todos os dias precisamos escolher entre servir a Deus ou não servir e nossas obras determinam se estamos frios, mornos ou quentes na presença do Senhor (Apocalipse 3:15).

Se alguém não está “quente” na presença de Deus, isso pode ser um indício de que chegou a hora de renovar a aliança com o Criador, tal como fez o povo em Siquém.

Glória a Deus e que o Senhor Jesus nos abençoe!

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