Leia o texto base antes de prosseguir.
“Mas, a quem assemelharei esta geração? É semelhante aos meninos que se assentam nas praças, e clamam aos seus companheiros, E dizem: Tocamo-vos flauta, e não dançastes; cantamo-vos lamentações, e não chorastes. Porquanto veio João, não comendo nem bebendo, e dizem: Tem demônio. Veio o Filho do homem, comendo e bebendo, e dizem: Eis aí um homem comilão e beberrão, amigo dos publicanos e pecadores. Mas a sabedoria é justificada por seus filhos. Então começou ele a lançar em rosto às cidades onde se operou a maior parte dos seus prodígios o não se haverem arrependido, dizendo: Ai de ti, Corazim! ai de ti, Betsaida! porque, se em Tiro e em Sidom fossem feitos os prodígios que em vós se fizeram, há muito que se teriam arrependido, com saco e com cinza. Por isso eu vos digo que haverá menos rigor para Tiro e Sidom, no dia do juízo, do que para vós. E tu, Capernaum, que te ergues até aos céus, serás abatida até aos infernos; porque, se em Sodoma tivessem sido feitos os prodígios que em ti se operaram, teria ela permanecido até hoje. Porém eu vos digo que haverá menos rigor para os de Sodoma, no dia do juízo, do que para ti.” (Mateus 11:16-24)
Por causa da prática do pecado e da falta de arrependimento, o juízo de Deus pode recair sobre pessoas, famílias, cidades, nações ou todo o mundo, como no dilúvio.
No Evangelho, esta seria a primeira vez que o Senhor Jesus emitiria juízo sobre cidades. O motivo da indignação do Senhor Jesus é claro e está no próprio texto, sendo ele a falta de arrependimento e incredulidade dos habitantes daquelas cidades, apesar dos muitos sinais ali operados.
De todos os 37 milagres registrados no Evangelho, mais de 60% deles ocorreu na região da Galileia. Porém ser testemunha de um milagre não é garantia de arrependimento, como podemos ver.
Mas por que Jesus investiu tanto na Galileia?
O primeiro e mais importante motivo é profético:
“Mas a aflição dos que estiverem sofrendo vai acabar. No passado, Deus humilhou a terra das tribos de Zebulom e de Naftali, mas no futuro ele tornará famosa essa região, que vai desde o mar Mediterrâneo até a terra que fica no lado leste do rio Jordão, isto é, a Galileia dos pagãos. O povo que andava na escuridão viu uma forte luz; a luz brilhou sobre os que viviam nas trevas.” Isaías 9:1,2
De fato, depois que Jesus retornou do Egito ainda criança, foi para a Galileia e habitou inicialmente em Nazaré, que era a terra de sua mãe e José. De lá, mudou-se para Cafarnaum, de onde partia para as suas missões.
“E, deixando Nazaré, foi habitar em Cafarnaum, cidade marítima, nos confins de Zebulom e Naftali;” Mateus 4:13
Embora Jesus tenha nascido na região da Judeia em Belém, que é Beit Lehem (Casa do Pão), Ele passou a infância e viveu em Nazaré até se mudar para Cafarnaum, quando já tinha aproximadamente 30 anos (Lucas 3:23), depois de ter sido batizado por João Batista no rio Jordão, perto de Betabara/Betânia (João 1:28).
Apesar de ter passado tanto tempo em Nazaré (algo que lhe rendeu o título de Nazareno), os próprios habitantes desse lugar, os mesmos que o viram crescer, quase o lançaram de um despenhadeiro com o objetivo de matá-lo, tornando esse episódio um dos momentos mais críticos de seu ministério na Galileia, conforme consta em Lucas 4:16-30.
Como vimos, o primeiro motivo para Jesus ter habitado na Galileia foi profético (Isaías 9:1-2).
Contudo a Galileia também era atrativa pelo fato de ser uma região estratégica para o ministério do Senhor Jesus, por estar integrada a uma importante rota comercial da época e por permitir que Jesus atuasse com mais liberdade do que em Jerusalém.

A Via Maris, ou “Caminho do Mar”, era uma importante rota comercial que conectava o Egito à antiga Mesopotâmia. Por meio dela, a mensagem de Jesus e os relatos de seus milagres se espalharam rapidamente para diversas regiões, como Egito, Pérsia, Síria, Anatólia e Mesopotâmia, ajudando a preparar o caminho para a futura evangelização realizada pelos apóstolos e discípulos, especialmente após a perseguição à igreja em Jerusalém registrada em Atos 8.
No mapa, você também pode ver como Corazim, Betsaida e Cafarnaum estavam localizadas ao norte do Mar da Galileia, o maior depósito de água doce de Israel, com 21 km de comprimento e 11 km de largura, onde Jesus acalmou a tempestade e caminhou sobre as águas.
Foi nesse contexto geográfico e político que o Senhor Jesus iniciou o seu ministério. Apesar de tudo o que Ele fez nessa região da Galileia, o juízo foi mais duro sobre a cidade em que Ele habitou, pois foi somente a Cafarnaum que disse “serás abatida até aos infernos”.
Com isso, podemos chegar a algumas conclusões:
1 – A cobrança é maior sobre os que recebem mais.
“— O empregado que sabe qual é a vontade do patrão, mas não se prepara e não faz o que ele quer, será castigado com muitas chicotadas. Mas o empregado que não sabe o que o patrão quer e faz alguma coisa que merece castigo, esse empregado será castigado com poucas chicotadas. Assim será pedido muito de quem recebe muito; e, daquele a quem muito é dado, muito mais será pedido.” Lucas 12:47,48
O patrão, no caso o Senhor Jesus Cristo, passou muito tempo naquelas cidades, ensinou e provou que tinha autoridade, por meio dos vários sinais que operou, mas os empregados (o povo), não o obedeceram.
Trazendo para a nossa realidade, na qual estamos recebendo mais da graça e dons de Deus, do que aqueles que estão fora do corpo de Cristo, igualmente a cobrança será maior sobre nós do que sobre os de fora.
2 – O exemplo da Galileia nos mostra que a presença física de Jesus e milagres não garantem fé salvação.
Embora Jesus tenha estado presente de forma física nessas cidades e operado muitos milagres, muitas pessoas permaneceram incrédulas e em estado de condenação.
Aos dez leprosos purificados, apenas a um estrangeiro Jesus disse “a tua fé te salvou”. Portanto a fé não vem pelo testemunhar milagres, mas do ouvir a Palavra de Deus (Romanos 10:17).
3 – O fato de Jesus ter habitado em Cafarnaum não poupou a cidade da tribulação que a atingiu.
Se Cafarnaum não foi poupada da tribulação e juízo, por que o Brasil seria? Aqui as pessoas zombam e desrespeitam os símbolos da fé cristã nos carnavais e até nas passeatas de certos grupos que lutam por respeito e reconhecimento, algo que eles mesmos não oferecem.
No texto base, consta que Corazim e Betsaida (Casa de pescadores), a cidade natal de Pedro, André e Filipe (João 1:44), receberiam juízo mais duro do que Tiro e Sidom.
Observe a localização delas no mapa:

Tiro e Sidom eram duas importantes cidades fenícias localizadas na costa do atual Líbano, portanto cidades gentílicas. Foi nas partes de Tiro e de Sidom que Jesus atendeu o pedido de uma mulher cananeia, a fim de libertar a filha dela, que estava “miseravelmente endemoninhada”.
Essas duas cidades já haviam sido alvo do juízo de Deus antes, por causa de seus atos de impiedade, conforme consta em Ezequiel, capítulos 26 e 28.
Acerca de Cafarnaum, Corazim e Betsaida, nenhuma delas existe como centro povoado ou manteve a mesma relevância do passado. Muitos estudiosos veem nisso um eco do juízo de Jesus, a tribulação antecipada por causa da incredulidade e falta de arrependimento.
Embora muitos considerem a tribulação apenas um juízo de Deus, na verdade, ela tem outros propósitos, sendo os principais conformar os crentes à imagem do Senhor Jesus Cristo e “revelar/expor” os salvos ao mundo.
Exemplo disso é que, apesar da destruição de Betsaida, de lá saíram apóstolos e discípulos que pregaram por muitas outras regiões.
A tribulação não salva, mas ela está vinculada ao processo de salvação.
“tendo anunciado o evangelho naquela cidade e feito muitos discípulos, voltaram para Listra, e Icônio e Antioquia, confirmando os ânimos dos discípulos, exortando-os a permanecer na fé, pois que por muitas tribulações nos importa entrar no reino de Deus.” Atos 14:21,22
Para entender isso melhor, é necessário saber a origem da palavra tribulação.

O tribulum era uma espécie de instrumento de madeira com pedras ou metais fixados na parte de baixo, usado para debulhar cereais, ou seja, separar o grão da palha por atrito e pressão.

O ato de passar o tribulum sobre o cereal era chamado de tribulare, um processo trabalhoso e até “doloroso” para a planta, uma analogia perfeita para momentos de sofrimento ou provação.
Esse atrito machucava o cereal, mas era necessário para libertar o grão, que era a parte útil e preciosa.
Da mesma forma, a tribulação na vida de uma pessoa é vista como um processo doloroso, mas que remove o que é inútil (palha) e revela o que é verdadeiro e precioso (a fé do salvo).
“E não somente isto, mas também nos gloriamos nas tribulações; sabendo que a tribulação produz a paciência, e a paciência a experiência, e a experiência a esperança.” Romanos 5:3,4
“Confirmando os ânimos dos discípulos, exortando-os a permanecer na fé, pois que por muitas tribulações nos importa entrar no reino de Deus.” Atos 14:22
Isso nos ajuda a entender por que a tribulação não é apenas um tempo de sofrimento, mas um período de peneira e separação, no qual os fiéis serão revelados. Deus já sabe quem é o trigo e o joio, mas a tribulação mostrará para os homens o que eles realmente são.
As cidades impenitentes servem de alerta para nós e para as nações: quanto maior a luz recebida (quanto mais somos expostos à Palavra de Deus), maior também é a nossa responsabilidade diante de Deus.




